Atelier UAR–UNESCO sobre Literacia Mediática apela a uma liderança mais forte dos media africanos no combate à desinformação
Port Louis, Maurícias, 30–31 de outubro de 2025.
A União Africana de Radiodifusão (UAR), em parceria com a UNESCO, realizou em Port Louis, Maurícias, um atelier de alto nível sobre Literacia Mediática e Informacional (MIL), sob o tema «Integrar a Literacia Mediática e Informacional nas políticas dos media africanos e nas estratégias institucionais».
O encontro de dois dias reuniu dirigentes de media, radiodifusores e especialistas em comunicação de todo o continente para analisar a forma como as instituições africanas podem integrar os princípios da MIL nas políticas e nas práticas das redações, combater a desinformação, promover a segurança digital e reforçar a coesão social.
Os media como motor da transformação de África
Ao declarar aberto o atelier, o Ministro das Tecnologias da Informação, Comunicação e Inovação das Maurícias, Avinash Ramtohul, afirmou que África está à beira de uma transformação demográfica que fará do continente a maior população jovem do mundo até 2035. Segundo ele, esta realidade representa simultaneamente uma oportunidade e uma responsabilidade.
«O desafio é transformar este potencial em desempenho — e os media devem desempenhar um papel central nesse processo.»
O ministro observou que, apesar de a tecnologia ter revolucionado a comunicação e tornado a informação mais acessível, também ampliou os riscos de informação falsa, desinformação e mal-informação. Com quase todos a poderem agir como «repórteres», conteúdos falsos podem circular mais rapidamente do que a verdade, ameaçando a paz, a estabilidade e o bem-estar dos cidadãos.
Questionou igualmente a responsabilidade das grandes plataformas digitais que alojam conteúdos nocivos, observando que milhões de dólares saem de África para os países onde essas plataformas operam, enquanto os efeitos da desinformação recaem sobre os jovens e as sociedades africanas.
Ramtohul afirmou que as Maurícias continuarão a trabalhar para garantir um ambiente digital seguro e alertou para os riscos de manipulação de imagens online e para a falta de mecanismos eficazes de reparação quando os danos já ocorreram. Questionou ainda quantas destas plataformas estão legalmente presentes em países africanos ou dispõem de responsáveis de conformidade capazes de agir rapidamente quando conteúdos nocivos se tornam virais.
A UAR apela ao fortalecimento dos media e a uma IA responsável
No seu discurso, o Diretor-Geral da UAR, Grégoire Ndjaka, reafirmou a convicção de que «uma sociedade informada começa por media informados». Sublinhou que jornalistas, produtores e radiodifusores exercem enorme influência sobre a perceção pública e a participação cívica.
Ndjaka apelou aos países africanos para contribuírem ativamente para o desenvolvimento global da Inteligência Artificial, afirmando que África não pode continuar a ser apenas consumidora, devendo tornar-se também inovadora. Acrescentou que, embora a IA possa melhorar a prática mediática, os jovens devem ser orientados para encarar a tecnologia como uma ferramenta que amplifica a criatividade humana e não como um substituto do ser humano.
A perspetiva da UNESCO sobre literacia mediática
Intervindo por videoconferência, Alton Grizzle, especialista de programa da UNESCO em Comunicação e Informação, destacou a urgência de desenvolver competências de literacia mediática e informacional num contexto marcado pela desinformação, polarização e discurso de ódio online.
Segundo ele, num ambiente digital complexo, a MIL permite aos cidadãos aceder, analisar e avaliar criticamente a informação, tanto online como offline. Defendeu ainda que o público deve compreender como funcionam e são governadas as tecnologias de comunicação, bem como o seu impacto sobre os direitos digitais. Concluiu que a MIL visa capacitar as pessoas para tomarem decisões informadas, participarem plenamente na vida cívica e contribuírem para a paz e a democracia.
Um apelo a media éticos, inclusivos e resilientes
Amaresh Ramlugun, presidente do Conselho de Administração da Mauritius Broadcasting Corporation (MBC), descreveu o atelier como um marco no reforço das instituições mediáticas africanas face à desordem informacional.
Observou que, num mundo onde a desinformação e o discurso de ódio circulam muitas vezes mais depressa do que a verdade, nunca foi tão importante promover um jornalismo credível, ético e inclusivo.
Segundo Ramlugun, o atelier pretende dotar os profissionais de ferramentas práticas de IA, técnicas de storytelling digital e estratégias de combate a narrativas falsas. Os participantes analisaram também boas práticas de proteção de dados, privacidade e produção de conteúdos sensíveis ao género, bem como estratégias para integrar a MIL nas políticas editoriais, nos fluxos de trabalho das redações e na formação jornalística.
Moldar o futuro informacional de África
Ao longo dos dois dias, os participantes partilharam experiências e desenvolveram aprendizagens colaborativas sobre o uso ético da IA, igualdade de género e inclusão nos media, privacidade digital, proteção de dados e integração dos princípios da MIL na cultura das redações.
A parceria UAR–UNESCO em Literacia Mediática e Informacional continua a constituir um quadro continental para construir um ecossistema mediático em que os cidadãos não sejam apenas consumidores de informação, mas participantes informados na construção da narrativa e do futuro de África.
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